Bezerra de Menezes

O Espírita

Antes de Allan Kardec ter codificado o Espiritismo, já existia no Rio de Janeiro o grupo espírita mais antigo, que foi o de Melo Morais, homeopata e notável historiador. Isto se teria dado antes de Kardec, por volta de 1853. Freqüentavam esse grupo o Marquês de Olinda, O visconde de Uberaba, o general Pinto e outros vultos notáveis na época.

O Primeiro Centro Espírita, que teve caráter jurídico, de nome Grupo Confúcio, criado em 2 de agosto de 1873, que proclama o lema: "Fora da Caridade não pode haver Salvação", infelizmente, não teve longa duração. Ao cabo de três anos ele se dissolvia. Além da assistência homeopática inteiramente gratuita, serviu o grupo para revelar ao Brasil o nome de um dos reveladores do Espiritismo, bem como, o que foi mais importante, traduzir para o português as obras básicas de Allan Kardec.

Do Grupo Confúcio fazia parte o conhecido espírita Dr. Joaquim Carlos Travassos, que havia empreendido a primeira tradução das obras de Allan Kardec e levara a bom termo a versão portuguesa de "O Livro dos Espíritos". Logo que esse livro saiu do prelo levou um exemplar ao deputado Bezerra de Menezes, entregando-o com dedicatória. O episódio foi descrito do seguinte modo pelo futuro Médico dos Pobres: "Deu-mo na cidade e eu morava na Tijuca, a uma hora de viagem de bonde. Embarquei com o livro e, como não tinha distração para a longa viagem, disse comigo: ora, adeus! Não hei de ir para o inferno por ler isto... Depois, é ridículo confessar-me ignorante desta filosofia, quando tenho estudado todas as escolas filosóficas. Pensando assim, abri o livro e prendi-me a ele, como acontecera com a Bíblia. “Eu lia. Mas não encontrava nada que fosse novo para meu Espírito. Entretanto, tudo aquilo era novo para mim!... Eu já tinha lido ou ouvido tudo o que se achava no "O Livro dos Espíritos". Preocupei-me seriamente com este fato maravilhoso e a mim mesmo dizia: parece que eu era espírita inconsciente, ou, mesmo como se diz vulgarmente, de nascença".

Foi assim, que nasceu, em 1876, a primeira sociedade kardecista no Rio de Janeiro, subordinada à denominação de "Sociedade de Estudos Espíritas Deus, Cristo e Caridade". Um dos seus fundadores e primeiro chefe de grupo foi Bittencourt Sampaio. Sampaio era médium receitista, isto é, receitava homeopatia sob inspiração.

O Espiritismo sempre se mostrou como uma espécie de tabu impenetrável para a massa que teima em não lhe conhecer a teoria e os postulados. Desde porém que qualquer pessoa (culta ou rude, não importa) se encontre, por circunstâncias mesmo independentes de sua vontade, frente a frente com os problemas espíritas, logo a doutrina se lhe revela, clara e insofismável, com o seu acervo de conforto moral e caráter altamente caritativo.

Tudo parecia um tabu cercado pelo anátema ou pela excomunhão dos padres... Não admira, portanto, a dificuldade, mais ou menos séria, que se antepunha à aquisição de elementos novos aos núcleos da época.

No dia 16 de agosto de 1886, um auditório de cerca de duas mil pessoas da melhor sociedade enchia a sala de honra da Guarda Velha, na rua da Guarda Velha, atual Avenida 13 de Maio, no Rio de Janeiro, para ouvir em silêncio, emocionado, atônito, a palavra sábia do eminente político, do eminente médico, do eminente cidadão, do eminente católico, Dr. Bezerra de Menezes, que proclamava a sua decidida conversão ao Espiritismo.

Poderíamos citar casos inúmeros de adesões entre pessoas ilustres da época, dentre elas, valha-nos, contudo, anotar a do advogado Antônio Luiz Sayão, acatado causídico de então. Desesperado pela enfermidade tenaz que corroía o organismo combalido de sua esposa, Sayão, vendo-a moribunda e desenganada por vários médicos, resolveu aceitar os conselhos de um amigo que, insistentemente, tentava induzi-lo a recorrer ao Espiritismo. Fez o que toda a gente faz em tais ocasiões. Pediu uma receita aos espíritos e... esperou o "milagre". O milagre se verificou; a homeopatia indicada entrou a operar proficientemente e, após longa e porfiada luta, a paciente sentiu-se revigorada e completamente curada. Conquistou assim o Espiritismo um dos seus valores mais notáveis, pois Sayão se tornou um verdadeiro difundidor da doutrina, à qual ele emprestava o brilho da sua cultura.

Outro caso, nas mesmas condições do precedente, foi o de Augusto Elias da Silva, cujo ardor, na propaganda do Espiritismo, foi de tal ordem que o levou até a fundar o "Reformador", em 21 de janeiro de 1883, órgão eminentemente espírita. O momento era de plena agitação doutrinária e o ambiente pesado de adversidade. Na imprensa diária do País, conservadores avessos à aceitação dos novos postulados lançavam contra os mesmo extensas catilinárias, crivadas de ápodos soezes. Do alto dos púlpitos, chovia sobre a massa dos fiéis prosternados a torpeza dos insultos e a viscosidade das insinuações, derramadas nos sermões dos sacerdotes. Elias da Silva, na ânsia de revidar tais ataques, foi bater à porta de Bezerra de Menezes. O "médico dos pobres", cuja alma já se encontrava impregnada pela sabedoria calma do mestre, sem entusiasmos facciosos, aconselhou-o com prudência, mas, também, sem vacilações. E a sua palavra plena de sabedoria, escudada na rigidez de princípios que a caracterizava, lançou a diretriz que o "Reformador" deveria seguir, na campanha apenas iniciada. Política discreta, sem o nivelamento dos processos de ataque, mas firme em suas afirmativas. Não combater o ódio com as armas do ódio; combater, de preferência, o ódio com o amor...

Isso se passava em 1883. Um ano após, diante da perspectiva de anarquia que já se passava nos arraiais do Espiritismo, sentiram aqueles que dirigiam os núcleos no Rio a necessidade de uma união mais forte e que, por isso mesmo, se tornasse mais indestrutível. Os Centros onde se ministravam a doutrina trabalhavam autonomamente. Urgia, com efeito, um sistema de disciplina e de ordem entre os Centros do Espiritismo. Não uma disciplina férrea, draconiana, semelhante à Igreja, pois no Espiritismo as dogmas foram coisas que sempre repugnou ao livre-arbítrio dos espíritas. Restava, portanto, um único recurso: o de congregar os elementos dispersos, em torno de um centro único, realizando assim a mudança, mas consagrando o ideal da união que faz a força... De tais resoluções surgiu a fundação de uma nova entidade: a "Federação Espírita Brasileira" em 01 de janeiro de 1884. Seu papel seria o de federar todos os grupos em uma espécie de sindicalização espiritual, para que todos pudessem fazer ouvir os seus anseios, através de um único porta-voz.

Nesse espaço de tempo, Bezerra perde dois de seus filhos, fato este que não o abateu de seus princípios filosóficos aceitando a Presidência da FEB.

Lançou os fundamentos de uma nova entidade, onde se congregassem todas as associações. Fundado um novo Centro, instalada a sua sede, tiveram início os trabalhos preparativos. Infelizmente ele não pôde realizar o programa que havia presidido à fundação. As correntes de opinião que dividiam a família espírita mais e mais se acentuavam. As ambições de mando, bem como os desejos de ocupar postos de relevo, convulsionavam os crentes, fazendo-os divergir pelas menores coisas.

A eterna luta entre espíritas e kardecistas, místicos e dos científicos, ocasionou retardamentos consideráveis na marcha da doutrina. O que Bezerra sonhava era com a união integral da família espírita. Não o compreenderam, infelizmente, e as dissensões prosseguiam. Na primeira comunicação, Bezerra chegou a declarar: “Permita Deus que os espíritas a quem falo, que os homens a quem foi dada a graça de conhecerem em espírito e verdade a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo, tenham a boa vontade de me compreender, a boa vontade de ver nas minhas palavras unicamente o interesse do amor que lhes consagro". Nada mais conciliatório. No entanto, tais palavras soaram como bombas. Bezerra não se deixou abater na ação leonina que empreendera, tendo suas atividades incrivelmente desdobrada. Tanto Romualdo, Daneil Mont’Alverne, como Santo Agostinho, seu verdadeiro orientador, apareciam-lhe constantemente.

Bezerra de Menezes, além dessas atividades, freqüentava assiduamente os notáveis "trabalhos de desobsessão" do Grupo Luz e Caridade.

Em 1889, o regime do Brasil sofreu a transformação radical de 15 de novembro. O exército se reuniu no Campo de Santana e o generalíssimo Deodoro, erguendo a espada, proclamou a República.

Bezerra de Menezes trabalhava. Seu espírito exauria-se na campanha santa que o absorvia por inteiro. Em dezembro, finalmente, começou a sentir cansaço. Seu organismo exigia repouso. Mesmo assim não atendeu aos imperativos do organismo. Não lhe concedeu tréguas. No intuito de se dedicar mais ao centro - pois neste setor é que maior necessidade havia de trabalho e de abnegação - demitiu-se da presidência da Federação. Animava-o uma secreta intenção: fundar uma escola de médiuns. E foi para dar realização a esse pensamentos, que Bezerra fundou uma escola de médiuns. Nem todos os companheiros acharam, porém, que a idéia fosse proveitosa. Muitos mesmo chegaram a combatê-la. Um deles foi Elias da Silva. Esse entendia que o desenvolvimento das faculdades mediúnicas de criaturas que para isso não estivessem devidamente preparadas, poderia redundar em casos de obsessão. Mas o parecer de Bezerra era justamente contrário ao de Elias. E firme como sempre instalou a escola de médiuns, no Centro. Aí, porém, sua desilusão foi completa. Clamou num deserto. Aos seus apelos reiterados, ninguém respondia. Só, absolutamente só, seu desconforto o fez sofrer mais pelo abandono dos seus amigos. Nem os próprios membros da diretoria compareciam às Sessões. Bezerra clamou aos quatro cantos. Convocou inutilmente os correligionários. Tudo surdo. Tudo impenetrável.

E havia qualquer coisa de sublime na atitude estóica daquele velho de longas barbas brancas, isolado e mudo, a lutar bravamente, em obediência aos imperativos do rumo que a si mesmo traçara.

No Centro, no seu Centro, sua figura de ancião curvava-se sobre a mesa dos médiuns e aí se deixava ficar, em completa abstração. Doía-lhe o fracasso, o desmoronamento inevitável, embora lento, daquela casa a que ele se dedicara o melhor de seus esforços. Mas mesmo no abandono, sua vontade não se quebrantava. Alguém o advertiu, um dia, que talvez ele não tivesse compreendido bem as famosas "instruções" de Allan Kardec. Bezerra de Menezes deu de ombros.

Seus recursos não lhe bastavam. E a necessidade ditou-lhe um gesto supremo. Pretendeu expor aos seus companheiros de diretoria a penúria em que se encontrava a associação. Para isso escreveu a cada um deles. Pediu-lhes o comparecimento inadiável. Mas ninguém apareceu... O lutador não se deu por vencido.

Na semana seguinte tornou a convocar os seus companheiros. E, como da primeira vez, Bezerra se encontrou sozinho na sede do Centro. Positivamente estava fracassado. Foi então à casa de um por um. Exortou-os a uma última reunião a fim de se tomarem as resoluções finais da entidade.

As respostas eram sempre as mesmas: - Meu caro Bezerra, você compreende, tenho andado atrapalhadíssimo. Não me leve a mal. Olhe, de minha parte, dou-lhe plenos poderes, para você deliberar, seja o que for... E Bezerra baixava a cabeça, agradecendo o "interesse" dos companheiros. Foi então que decidiu bater às portas da "Fraternidade". Ele não queria que o Centro expirasse, solicitou então uma sala, um cantinho qualquer, por menor que fosse, bastaria para lhe assegurar a sede. Nem que dessem apenas uma mesa, Ele trabalharia sozinho. Seus amigos da "Fraternidade" dispensaram-lhe o acolhimento devido, pois, a Bezerra de Menezes, todos queriam bem e lá ficou instalado o Centro.

Logo na semana seguinte aparecia nas colunas do "O Paíz" o aviso seguinte:

"Centro Espírita, com sede na velha sociedade Fraternidade, tendo por bandeira Deus, Cristo e Caridade, auxiliará o desenvolvimento intelectual, criando um estabelecimento de humanidade, onde o ensino seja gratuito à mocidade, mantendo o ”Reformador" e dando à luz uma Revista de estudos práticos da doutrina, sob o ponto de vista científico, fazendo conferências públicas, ao alcance de todas as classes. Auxiliará o desenvolvimento moral, pedindo o concurso de todos para obras de beneficência, organizando regularmente, de conformidade com as leis da doutrina, os grupos existentes e os novos que forem precisos para acudir-se aos espíritos sofredores, adquirir-se o conhecimento em espírito e verdade do Evangelho e fazerem-se experimentações científicas sobre princípios e fatos espíritas. Podem, pois, todos os espíritas do Brasil, que quiserem dar força a esta organização recomendada pelo Mestre, dirigir-se ao Centro Espírita "Fraternidade", provisoriamente à Rua São José, 44, 2o andar".

Não foi, porém, lá muito feliz a estadia do Centro na "Fraternidade". Novas dissensões entraram a agitar o meio. Novas lutas, novos desentendimentos. A eterna porfia, a sempre renovada incompreensão entre místicos e científicos, Kardec e de Roustaing.

Bezerra de Menezes não combatia ninguém. Combateu sim, durante toda a sua vida, em prol da estreita união dos espíritas, indistintamente.

O ano de 1890 não findou satisfatoriamente para os meios espíritas no Brasil. Em outubro, o governo republicano sancionou o Novo Código Penal. O pavor dominava os lares. As buscas eram constantes, nas próprias casas de família. O arbítrio imperava, sob o gelado silêncio dos habitantes. Nos morros, nos arrabaldes distantes, no próprio centro da cidade, a polícia devassa tudo, prendendo sem delongas todo aquele que lhe parecesse suspeito. As denúncias anônimas choviam e os agrupamentos de qualquer natureza viam-se logo dispersados. Nos meios espíritas não foi menor o pânico. Perseguidos e proibidos de se reunirem, os poucos centros existentes viram-se na dura contingência de cerrarem as suas portas, a fim de que não incorressem nas iras policiais. Foi este um dos períodos de mais dura provação para os espíritas no Brasil. O próprio "Reformador" viu-se obrigado a suspender sua publicação. A Igreja Católica, embora separada do Estado, concorria assim mesmo para exercer maior pressão contra seu inimigo mais acirrado. E do alto dos púlpitos choviam as catilinárias contra os espíritas. Os centros fecharam as portas; os mais fervorosos se reuniam às ocultas, na atmosfera gélida do pânico.

Em 1893 a situação mais se agravou provocada pela Revolta da Armada. Não só a do País como, também, a situação pessoal do incansável lutador. Pobre, paupérrimo mesmo, e em pleno isolamento, não desanimou. No Natal do mesmo ano Bezerra encerrou a série de "Estudos Filosóficos" que vinha publicando no "O Paiz".

Foi em uma noite fria de julho de 1895, que o grupo constituído pelos membros da diretoria bateu à porta da casa do "médico dos pobres". Convidaram Bezerra a assumir a presidência da Federação Espírita. Não, não podia aceitar. Seu estado de saúde já não lhe proporcionava a energia necessária para arcar com tamanha trabalheira. Sentia-se cansado, exausto de lutar contra a vida e contra os homens. Não se sentia com forças para tentar acomodar toda aquela gente cujos ânimos cada vez mais se acirravam em franca adversidade. Mesmo assim, declarou que estava ali para receber as sugestões do mundo espiritual, cujas decisões ele prometia seguir, obedientemente. Disse e esperou. Alguns momentos após, o próprio espírito de Agostinho, incorporado no médium Frederico Júnior, veio dirigir-lhe palavras de conforto, aconselhando-o a lutar mais ainda. Concitou-o a desenvolver seus esforços no sentido de ampliar a campanha sob a bandeira de Deus, Cristo e Caridade. Como batalhador de primeira linha - pois que era um espírito de escol - devia aceitar a presidência da Federação. Dali, maiores seriam ainda os benefícios que ele iria prestar aos sofredores. Finalizando, Agostinho prometeu auxiliá-lo.

Consoante a promessa que fizera, Bezerra de Menezes viu-se obrigado a obedecer. E resignado, o infatigável batalhador, com 63 anos de idade, assumiu a presidência da Federação Espirita Brasileira.

Na cavalgada do tempo, 1900 raiou como a esperança falaz que a humanidade costuma depositar, supersticiosamente, nos marcos artificiais de cada era. Logo nos primeiros dias de janeiro, Bezerra de Menezes foi acometido por violento ataque de congestão cerebral, que o prostrou no leito pobre de onde ele jamais iria poder levantar-se. Principiou daí o longo período de agonia que durou três meses, cruciantemente, indescritivelmente... A casa triste, caiada de branca, casa típica dos arrabaldes cariocas daquela época, onde se encontrava o gigante baqueado, era bem o recanto humilde e sereno onde se deveria desprender um espírito de tal sublimidade. Dentro, em um quarto desguarnecido e simples, Bezerra agonizava. Deitado a um canto, sobre um leito de ferro, sua figura impressionava deveras. A congestão violenta e tenaz arrancara-lhe a fala e os movimentos.

Os olhos de Bezerra de Menezes! Toda a gente que o conhecera falava continuamente em seu olhar. Verdes, da cor dos "verdes mares bravios da sua terra natal", dir-se-ia que dentro daqueles dois olhos se encerrava a imagem translúcida das águas do seu Ceará, em contorções de espumas e arrepiadas pelo sulco das jangadas. Dentro da penumbra das pálpebras encerrava-se o mistério úmido da alma boníssima do amigo dos pobres.

Os membros endureceram na paralisia irremediável; os olhos continuaram a mover-se. A língua travou-se-lhe na boca retorcida e grossa; mas os olhos brilhavam ainda. Ao lado do leito, apenas uma cadeira de palhinha e uma pequena mesa atulhada de medicamentos, receitas, copos, vidros etc. Na cadeira havia continuamente uma criatura qualquer. Era o lugar das visitas.

O visitante entrava nas pontas dos pés, sentava-se na cadeira e ali se quedava mudo durante alguns momentos. Bezerra voltava para ele seus olhos claros e úmidos, onde se escondia o mistério do nada e cuja luz brilhava esquisitamente como que a traduzir a gratidão do enfermo. Raros eram os que resistiam a esse olhar; e, antes que rebentassem os soluços, a visita se levantava e deixava o quarto, aquele quarto onde se extinguia alguém que, ao partir, iria deixar tanta gente órfã da Bondade.

Durante o dia e durante a noite, nunca ele esteve só. E a gratidão daquela gente traçou, nesses últimos dias de vida do "Médico dos Pobres", uma página delicada, emotiva e sublime.

Ninguém desconhecia a luta tremenda em que se debatia a família do grande apóstolo do Espiritismo. Todos conheciam suas dificuldades financeiras, mas ninguém teria a coragem de oferecer fosse o que fosse, de forma direta. Por isso, os visitantes depositavam suas espórtulas, delicadamente, debaixo do seu travesseiro. No dia seguinte, a pessoa que lhe ia mudar as fronhas, surpreendia-se por ver ali desde o tostão do pobre até a nota de duzentos mil reis do abastado!...

No dia 11 de abril de 1900, dia esplendente de sol e de radiosidade, naquela mesma casa da Rua 24 de Maio, Bezerra de Menezes vivia os seus últimos momentos.

Bezerra de Menezes faleceu às onze e meia, sem um estertor, sem uma contração. No dia seguinte, seu corpo foi sepultado no cemitério de São Francisco Xavier, às 2:00 horas da tarde; e, no dia 13, o "O Paíz", jornal que fôra para ele uma verdadeira tribuna doutrinária, descrevendo-lhe o traspasse, iniciava assim o longo noticiário:

"Revestiram-se de uma solenidade augusta as derradeiras homenagens ontem prestadas a este eminente brasileiro. Desde que se divulgou a notícia do seu falecimento, até uma parte do dia de ontem, uma incessante romaria se estabeleceu em demanda da sua habitação. Eram os pobres, os humildes e necessitados, no anonimato da sua condição, que lhe iam render o tributo da saudade e do reconhecimento, conquistados a golpes de bondade, e cujos soluços e lamentações se confundiam com os da pobre família desolada".

O enterro do corpo de Bezerra foi uma apoteose. Gente de toda a cidade do Rio de Janeiro, especialmente dos morros, das favelas, gente humilde, descalça, maltrapilha, os pobres de espírito, os humildes de coração, beneficiados pela Medicina do seu Amor, ali se achavam em mistura com outra gente rica e poderosa, pertencente ao mundo oficial do Governo e às entidades culturais do Distrito Federal.

E todos choravam como se tivessem se apartado de um Pai, do maior de seus amigos!

Na noite de 12 de abril de 1900 (após 24 horas de seu falecimento), houve a habitual sessão na Federação Espírita Brasileira. Então todos os que dela participavam ouviram, pela maravilhosa mediunidade sonambúlica de Frederico Pereira da Silva Junior, a palavra querida do espírito do nosso Bezerra de Menezes. Sua mensagem foi longa, e nela mais uma vez, humildemente, agradeceu a Deus, a Jesus e à Virgem Santíssima as bênçãos divinas que misericordiosamente recebia na pátria espiritual, pois se considerava ainda muito pecador e, portanto, indigno desse sagrado amor de Jesus!

No dia 17 de abril, promovido por Leopoldo Cirne, reuniram-se alguns amigos de Bezerra, a fim de chegarem a um acordo sobre a melhor maneira de amparar a sua família, tendo então sido formada uma comissão que funcionou sob a presidência de Quintino Bocaiúva, senador da República, para se promover espetáculos e concertos, em benefício da família daquele que mereceu o cognome de "Kardec Brasileiro".

Outros amigos tentaram lhe dar paz à alma, mediante o santo sacrifício da missa, em um templo católico. A cerimônia anunciada para o dia 29, na Igreja do Socorro, em São Cristóvão, não foi levada a efeito. Obstáculos de ordem doutrinária se antepuseram, à última hora, ao intento piedoso dos amigos católicos... "O Paíz" do dia 30, noticiando o fato, terminou assim a sua apreciação:

"Quanto à missa, com o libera-me, no momento em que não tardaria a começar o sacrifício, para o que já se achava previamente armado o catafalco, na Igreja do Socorro, com a orquestra a postos, e presente um considerável número de fiéis, amigos do Dr. Bezerra de Menezes, foi recebida uma ordem do reverendíssimo Vigário Geral da Arquidiocese, proibindo os sufrágios, sob a alegação de se tratar do chefe dos espíritas do Brasil".

Frustrada a intenção dos que queriam salvar-lhe a alma, deixaram todos o pequeno templo e se dirigiram em romaria ao cemitério, onde diante do túmulo do "Médico dos Pobres", falaram vários oradores, inclusive o Dr. João Pereira Lopes.


Digno de registro foi um caso sucedido com o Dr. Bezerra de Menezes, quando ainda era estudante de Medicina. Ele estava em sérias dificuldades financeiras, precisando da quantia de cinqüenta mil réis (antiga moeda brasileira), para pagamento das taxas da Faculdade e para outros gastos indispensáveis em sua habitação, pois o senhorio, sem qualquer contemplação, ameaçava despejá-lo.

Desesperado ? uma das raras vezes em que Bezerra se desesperou na vida ? e como não fosse incrédulo, ergueu os olhos ao Alto e apelou a Deus.

Poucos dias após bateram-lhe à porta. Era um moço simpático e de atitudes polidas que pretendia tratar algumas aulas de Matemática.

Bezerra recusou, a princípio, alegando ser essa matéria a que mais detestava, entretanto, o visitante insistiu e por fim, lembrando-se de sua situação desesperadora, resolveu aceitar.

O moço pretextou então que poderia esbanjar a mesada recebida do pai, pediu licença para efetuar o pagamento de todas as aulas adiantadamente. Após alguma relutância, convencido, acedeu. O moço entregou- lhe então a quantia de cinqüenta mil réis. Combinado para o dia seguinte o início das aulas, o visitante despediu-se, deixando Bezerra muito feliz, pois conseguiu assim pagar o aluguel e as taxas da Faculdade. Procurou livros na biblioteca pública para se preparar na matéria, mas o rapaz nunca mais apareceu.

No ano de 1894, em face das dissensões reinantes no seio do Espiritismo brasileiro, alguns confrades, tendo à frente o Dr. Bittencourt Sampaio, resolveram convidar Bezerra a fim de assumir a presidência da Federação Espírita Brasileira.

Em vista da relutância dele em assumir aquele espinhoso encargo, travou-se a seguinte conversação:

? Querem que eu volte para a Federação. Como vocês sabem aquela velha sociedade está sem presidente e desorientada. Em vez de trabalhos metódicos sobre Espiritismo ou sobre o Evangelho, vive a discutir teses bizantinas e a alimentar o espírito de hegemonia.

? O trabalhador da vinha, disse Bittencourt Sampaio, é sempre amparado. A Federação pode estar errada na sua propaganda doutrinária, mas possui a Assistência aos Necessitados, que basta por si só para atrair sobre ela as simpatias dos servos do Senhor.

? De acordo. Mas a Assistência aos Necessitados está adotando exclusivamente a Homeopatia no tratamento dos enfermos, terapêutica que eu adoto em meu tratamento pessoal, no de minha família e recomendo aos meus amigos, sem ser, entretanto, médico homeopata. Isto aliás me tem criado sérias dificuldades, tornando-me um médico inútil e deslocado que não crê na medicina oficial e aconselha a dos Espíritos, não tendo assim o direito de exercer a profissão.

? E por que não te tornas médico homeopata? disse Bittencourt.

? Não entendo patavinas de Homeopatia. Uso a dos Espíritos e não a dos médicos.

Nessa altura, o médium Frederico Júnior, incorporando o Espírito de S. Agostinho, deu um aparte:

? Tanto melhor. Ajudar-te-emos com maior facilidade no tratamento dos nossos irmãos.

? Como, bondoso Espírito? Tu me sugeres viver do Espiritismo?

? Não, por certo! Viverás de tua profissão, dando ao teu cliente o fruto do teu saber humano, para isso estudando Homeopatia como te aconselhou nosso companheiro Bittencourt. Nós te ajudaremos de outro modo: Trazendo-te, quando precisares, novos discípulos de Matemática...

O Espírito

Mensagem dada por bezerra, após 24 horas do falecimento, através da mediunidade sonambúlica de Frederico Pereira da Silva Junior.

"Baixai vossos olhos sobre os meus amigos, ó Virgem Gloriosa! São também vossos filhinhos, como eu, que aflito gemi e padeci na Terra, sempre com os olhos cravados em vós. Dai que eles possam compreender, ó Virgem Imaculada, esse ensinamento em que se vê vosso amado Filho, o Rei absoluto deste Planeta, curvado aos pés de humildes pecadores, como um servo humilde, lavar de seus pés o pó da estrada de peregrinos que trilhavam!

Que eles possam compreender esse - amai-vos uns aos outros -, certos, convencidos de que o amor que desdobrarem das suas almas, para os seus irmãos, evola-se, libra-se aos paramos onde está o vosso amado Filho, - é o amor elevadíssimo que nos vem com Jesus.

Meus caros companheiros, meus amigos, é demais a recompensa! Saudades! Ouvi, de mais de um, essa palavra, mas saudade por quê?

Vê tu, meu velho amigo (para Sayão), vêem todos vocês como é fraco o espírito humano!

Vocês, espíritas, meus companheiros, que falam a todo o momento comigo, têm saudades e choram! Eu também choro a minha fraqueza. Oh! Deus, oh! Jesus - Cristo! Quando, pelo verdadeiro elo da amizade, pela verdadeira compreensão dos vossos ensinos serão estancadas as nossas lágrimas, e essa palavra não terá nenhum sentido na linguagem das criaturas, vivendo todos nós sempre unidos e ligados pelo coração? Eu estou junto de vocês, meus caros companheiros. Eu lhes peço: não quebrem essa cadeia sagrada.

Como isso é bonito, como isto eleva as nossas almas!

...Obrigado a todos vocês, a todos vocês, obrigado.".


Seu espírito foi recebido na Espiritualidade com hosanas e graças. Falanges e falanges de espíritos amigos fizeram um verdadeiro corredor, onde Bezerra de Menezes era consagrado espiritualmente como um apóstolo do bem. Ismael, patrono espiritual do Brasil, veio recebê-lo, para conduzi-lo às esferas espirituais mais evoluídas.

Teve permissão para ser encaminhado a esferas ainda mais evoluídas, quando de joelhos efetuou uma prece fervorosa, solicitando autorização para poder continuar sua obra em favor dos enfermos e necessitados. Finalizou solicitando: "Enquanto na Terra existir um único irmão em dor e sofrimento, eu solicito a devida permissão de continuar meu trabalho, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo".

Hoje, no Planeta Terra, sua obra está em todos os locais, Orfanatos, Asilos, Hospitais, Casas de Socorro , Albergues, Centros Espíritas, Casas de Orações etc.

No dia 07 de janeiro de 1965, aceitou ser o Patrono Espiritual do Centro Espírita "Cantinho de Paz, Luz, Esperança e Caridade", bem como de suas filiais, denominadas: "Lar de Socorro Espiritual Bezerra de Menezes," e "Lar Bezerra de Menezes, para Idosas". Neste Centro Espírita, ele finalmente conseguiu manter seu ideal, seu sonho que fora a Unificação das Correntes Espíritas, sem preconceitos, todas unidas trabalhando em prol da caridade espiritual e da filantropia humana.

Até a presente data, Ele continua orientando os destinos desta Casa de Caridade, onde é praticado o Espiritismo Cristão Unificado, através de sucessivas mensagens que norteiam toda a organização, efetuando, através de diversos cursos, uma escola mediúnica, preparando Obreiros e Seareiros para a vinha do Senhor.

Opinião sobre a Obra "Os quatro Evangelhos"

Houve uma época em que levantou-se dúvida sobre se Doutor Bezerra de Menezes teria mantido sua opinião favorável à obra "Os Quatro Evangelhos", de João Baptista Roustaing, depois de desencarnado.

Em sua obra "Ponte Evangélica", de 1984, nosso amigo Jorge Damas publicou um caso que trouxe luz definitiva sobre o tema (pág.36-46). Confira:

"No dia 18 de fevereiro de 1891 fundou Dr. Bezerra de Menezes o Grupo Espírita Regeneração, com o objetivo da "prática da caridade cristã e a propaganda da Doutrina Espírita, dentro dos moldes da legítima fraternidade e da máxima tolerância...". Sua idéia inicial era de que este Grupo se corporificasse dentro da Federação Espírita Brasileira, onde fora fundado, para que, mais tarde, se constituísse estatutariamente e marchasse independentemente.

Desde suas primeiras reuniões, o Dr. Bezerra de Menezes instituiu o estudo baseado nos "ensinamentos do Evangelho, de Nosso Senhor Jesus Cristo, nas instruções da codificação de Allan Kardec, na Revelação da Revelação de J.-B. Roustaing.

Após a desencarnação do Dr. Bezerra de Menezes, em 11 de abril de 1900, o Regeneração continuou o trabalho, implantado por seu fundador. Enquanto isto, alguns adversários de Roustaing divulgavam, entusiasticamente, que o "Kardec Brasileiro" havia reconhecido o seu "engano" em adotar o estudo sistemático, Kardec-Roustaing, encontrando a "verdade definitiva" somente em Kardec.

Em 1952, o Dr. Alcides de Castro, grande continuador de Bezerra de Menezes, no Regeneração, sentiu a necessidade de organizar um estatuto. Recorreu a Chico Xavier, a fim de obter uma orientação espiritual, que viesse ao encontro do seu objetivo. Bezerra de Menezes, então, se manifestou afirmando que ditaria todo o estatuto, através da mediunidade segura do então presidente do Grupo, Dr. Alcides.

Preparou-se, assim, o nosso Alcides para a tarefa de tão grande responsabilidade. Quando terminou, levou o trabalho a Chico Xavier, através de quem obteve reconhecimento da espiritualidade, quando à autenticidade do estatuto, ditado por Bezerra de Menezes. Para sua surpresa, o próprio Bezerra de Menezes, através do lápis missionário de Chico Xavier, subscreveu o estatuto, sendo acompanhado por outras entidades, amigas do Grupo, que da mesma forma se manifestaram participando da festa espiritual da independência do "Regeneração".

(...) logo na primeira página do estatuto, Bezerra de Menezes (desencarnado) recomenda o estudo obrigatório, interno e publicamente, da obra "Revelação da Revelação", de J.-B. Roustaing ..."

ESTATUTO DO GRUPO ESPÍRITA " REGENERAÇÃO"

CASA DOS BENEFÍCIOS

DENOMINAÇÃO, SEDE, FINS E DURAÇÃO

Art. 1º - O Grupo Espírita "Regeneração", cujo título é agora acrescido das palavras - Casa dos Benefícios - em memória de uma Fundação com igual nome existente em Roma no século VIII, fundado no Rio de Janeiro, Capital da República dos Estados Unidos do Brasil, em 18 de fevereiro de 1891, pelo Dr. Adolfo Bezerra de Menezes, aí terá sua sede e fôro jurídico, como sociedade civil e religiosa, tendo Patrono o seu fundador, na qualidade de delegado de Ismael, sob o augusto patrocínio de Jesus, e tendo por fins a prática da caridade cristã e a propaganda da Doutrina Espírita, dentro dos moldes da legítima fraternidade e da máxima tolerância, por todos os meios ao seu alcance, baseados nos ensinamentos do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, nas instruções da codificação de Allan Kardec, na Revelação de Revelação de J.-B. Roustaing, nas obras recebidas pelo médium Francisco Cândido Xavier e outras complementares.

§ 1º- Para a execução do programa traçado organizará o Grupo sessões mediúnicas, incluindo os trabalhos de socorro e assistência aos irmãos desencarnados sofredores e de desenvolvimento metódico de médiuns, podendo organizar ainda sessões públicas e conferências de propaganda religiosa e científica..."

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"...11 de abril, desencarne do Dr. Adolfo Bezerra;

5ª e 6ª feiras chamadas santas lições da Ceia e do Calvário - em sessão única, em um destes dois dias;

25 de dezembro, descida do Divino Mestre ao nosso planeta;

j)- a fim de cooperar na efetivação do grandioso plano de união de todos os espíritas-cristãos do Brasil, deverá a Diretoria desta instituição promover oportunamente a sua inscrição no quadro federativo da Liga Espírita do Distrito Federal, desta forma se ligando à Federação Espírita Brasileira;

k)- o ano social corresponderá ao ano civil.

Que a paz do Senhor permaneça nos vossos corações..."

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" APROVADO: SÓCIOS CONTRIBUINTES"

(por ordem de assinatura do Estatuto)

- Erminda Gonçalves Marques

- Lídia Carvalho Miranda

- Maria Bastos de Resende Costa

- Cecília Leal Ferreira

- Maria Gomes Costa

- Antônio Sampaio Júnior

- José Pinto Miranda

- Tereza de J. Ferreira

- Alcides Neves Ribeiro de Castro

- Mário Dutra

"...(AS MENSAGENS DE ALTO TEOR ESPIRITUAL, QUE ESSES ESPÍRITOS DITARAM,SE ENCONTRAM À DISPOSIÇÃO DOS INTERESSADOS, NO ARQUIVO DO " REGENERAÇÃO" )..."


AUTORES CONSULTADOS:

Divaldo Pereira Franco (fita), Francisco Cândido Xavier

Ramiro Gama, Sylvio Brito Soares

Zêus Wantuil, Palestras virtuais do C.E.L.D

Diversos Sites na internet

 

 
Allan Kardec - Infância até diplomar-se
MEIMEI
André Luiz
Antonio Joaquim Freire
Peixotinho
Cenyra de Oliveira Pinto
Dr. Fritz
Eurípedes Barsanulfo
Joanna de Ângelis
Chico Xavier -1
Chico Xavier -2
Ermance Dufaux



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